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“Costumes do Rio de Janeiro”, litografia, 1835. Rugendas.

É uma invenção recente no mundo da arte, datando de finais do século XVIII e inícios do XIX.A litografia é feita sobre um tipo especial de pedra calcária  hoje quase extinta. A vantagem é que uma mesma pedra pode ser lixada e servir de matriz para muitas obras.O princípio da impressão litográfica é a oposição entre água e óleo.

Primeiro desenha-se na pedra com lápis ou tinta muito gordurosa. Depois, passa-se uma mistura de ácidos e goma arábica para reagir com as superfícies com e sem tinta. Molha-se a pedra e aplica-se a tinta de impressão com um rolo. A gordura da tinta adere à gordura do desenho na pedra e é repelida pela água na pedra exposta. O desenho é então transferido para o papel usando uma prensa.

Com a escassez de pedras apropriadas, a litografia pode ser feita sobre chapas de zinco quimicamente tratadas.As características mais marcantes da Litografia são a ausência de qualquer relevo e a suavidade dos tons de cinza, reproduzindo com a delicadeza de um desenho a lápis.Vários artistas brasileiros adotaram a litografia, entre eles Darel Valença Lins, Rubens Gerchman e Antônio Grosso, este último é um dos maiores especialistas brasileiros na técnica, sendo também exímio restaurador de obras em papel. (texto de Dennis Hanson)

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UM BREVE HISTÓRICO DA LITOGRAFIA NO BRASIL:

Alguns autores citam 1797 como o ano do descobrimento da Litografia, outros registram como 1798 polêmica à parte lá se vão mais de 200 anos desde que Aloys Senefelder inventou este processo mágico que utiliza a pedra como matriz para impressão. Um princípio técnico muito simples, fruto da incompatibilidade entre duas substâncias: a gordura e a água. Logo após ter sido introduzida em alguns dos mais importantes países da Europa, a França, em 1814, onde obteve imediato e memorável desenvolvimento, na Espanha (1819) e em Portugal (1824), a Litografia rapidamente chegou ao Brasil com o trabalho pioneiro de Arnauld Julian Pallière. Em 1819 os jornais do Rio de Janeiro publicavam anúncios alusivos ao processo e em 1825, o suíço Johann Jacob Steimann, era contratado pelo Imperador, que assim introduzia oficialmente a litografia no país.

 

Nas décadas seguintes era cada vez maior o número de oficinas litográficas instaladas no Rio de Janeiro. Esses estabelecimentos atendiam a toda espécie de encomendas, executando estampas artísticas, marcas comerciais, planos de arquitetura, mapas, faturas, etc. Vendiam também os materiais necessários à litografia e alugavam as pedras litográficas aos artistas que trabalhavam em suas residências e ateliers.

A formação de novos gravadores e litógrafos era feita nas próprias oficinas, embora constasse nos estatutos da Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro. Da litografia de arte praticada no século XIX, no Brasil, não se tem muita notícia. É importante esclarecer que as inúmeras estampas soltas, vistas panorâmicas, retratos e cartazes realizados não se enquadravam na categoria “Arte”, uma vez que sua criação e execução – geralmente sob encomenda – tinham fins exclusivamente comerciais. Deve-se porém ressaltar que muitas destas obras não são de maneira alguma desprovidas de sentido estético, ultrapassando os limites do decorativo ou do publicitário e inserindo-se no contexto artístico. O fator tempo determina uma mudança no enfoque dado a essas peças ditas “comerciais”. Um trabalho realizado no séc. XIX com objetivo comercial, como um retrato, em nossos dias pode assumir valor artístico. Na verdade esta questão é polêmica e permite várias interpretações. Na década de 1870, surgiram as pitorescas revistas ilustradas, cujas edições eram ansiosamente aguardadas pela população. Desenhistas notáveis e quase 250 impressores levam a litografia a um pique extraordinário, fixando na pedra os flagrantes mais preciosos da vida nacional. Apesar desse entusiasmo, a Academia Imperial de Belas Artes, mantinha-se distante do ensino da Gravura, que continuava sendo feita nas oficinas gráficas. A litografia declinou nas primeiras décadas do séc. XX, apesar se ser realizada pela Imprensa Nacional e outros estabelecimentos públicos até aproximadamente os anos 40.

A implantação do método fotográfico de gravação de matriz (fotolito) e impressão industrial (offset) fizeram com que a litografia caísse em desuso por ser demasiadamente artesanal. As questões da dificuldade de obtenção de pedras e prensas (já raras) e sua carência de mão-de-obra qualificada – bons desenhistas, gravadores, e impressores – também foram fatores relevantes.

A partir da segunda metade do séc. XX há um interesse crescente dos artistas brasileiros pela litografia. Formam-se grupos pioneiros em todo o país. Prensas podiam ser encontradas em ferro-velhos, pedras litográficas revestindo paredes e pisos de jardins ou até em escadas residenciais.

O escultor Mário Cravo possuía em sua oficina uma prensa, na qual em 1954, João Garboggini Quaglia executava seus trabalhos. Em 1958, Darel Velança Lins inicia atividades na oficina litográfica da antiga Escola de Belas Artes, no Centro do Rio, no prédio que hoje abriga o Museu Nacional de Belas Artes. Em São João del Rei, em 1961, Quaglia adquire uma prensa antiga e reintroduz a litografia em Minas Gerais. Ministrando aulas na Escola Guignard de Belo Horizonte, forma uma legião de litógrafos, hoje artistas consagrados como Yara Tupinambá, Vicente Abreu, Paulo Laender e Lótus Lobo. No Rio de Janeiro, precisamente no Bairro do Leblon, Antonio Grosso e Otávio Pereira abrem atelier onde executam trabalho de impressão litográfica para artistas como: Caribé, Aldemir Martins e Ivan Serpa. Posteriormente Grosso, já sozinho, imprime para Augusto Rodrigues, Aluísio Magalhães e Darel. Em 1969 a disciplina Litografia passa a integrar oficialmente a grade curricular do curso de Gravura na Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro. Como orientador estava Ahmés de Paula Machado, um dos responsáveis pelo renascimento da litografia no Brasil, função que exerceu até 1984. A partir daí, assume o Atelier de Litografia, o pintor e gravador Kazuo Iha. O ano de 1972 marca a criação, no Rio de Janeiro, do Instituto de Belas Artes atual Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Desde então a litografia, como linguagem artística, vem se expandindo por todo o Brasil, e temos como bons exemplos o Solar do Barão, em Curitiba, a Oficina Guaianases, entre outras. (texto de Marcelo Frazão. Rio de Janeiro, 1998. Do catálogo da exposição Litografia 200 anos)